D67_2215
Andando sobre terra preta
Onde o rio Arapiuns encontra o rio Tapajós e, juntos, os dois rios desaguam no rio Amazonas, aqui há consideráveis extensões de terra preta, o solo super-fértil dos indígenas amazônicos. Por muito tempo vigorou a tese oficial de uma Amazônia quase deserta, com algumas poucas aldeias esparsas e selvagens, lutando pela sobrevivência. Já isso não corresponde mais as evidências. Como no encontro do rio Negro com o rio Solimões, aqui, nesse importante ponto geográfico, havia grandes cidades e uma civilização avançada. As manchas de terra preta, por certo antropogênicas, ou seja, solos preparados de origem humana, revelam a existência de uma agricultura bem estruturada, capaz de alimentar os moradores daqueles lugar e os seus numerosos visitantes, pois, três grandes rios se encontram naquela região.
“Esses povos existem em número tão enorme que não é possível contar seus povoados ou aldeias, muitas vezes em um dia de marcha passa-se por 10 a 12 aldeias, e em cada uma há de 10 a 30 habitações, e dentre essas casas há algumas que medem 30 ou 40 passos de largura… até mesmo suas ruas, que eles fazem bem retas e largas, são mantidas tão limpas que não se encontra nenhuma folha caída…”
Relato do guarda de fronteira Antonio Pires dos Campos, 1720

D67_2215 – Leonide Principe
Equipment: NIKON D7000 with lens AF-S DX VR Zoom-Nikkor 18-200mm f/3.5-5.6G IF-ED [II] set at 26 mm – Exposition: ISO: 100 – Aperture: 5.6 – Shutter: 1/80 – Program: Shutter Priority – Exp. Comp.: +0.3,
Original digital capture of a real life scene –
Original file size: 4992px x 3280px
Location: Ana community (Santarém – Pará Brazil)
Date: May 27, 2019 – Time: 2:46:38 PM
Collection: Urucurea community – Persons shown: none
Keywords:
communitarian tourism, turismo comunitário, ecoturismo, ecotourism, TURISMO, TOURISM, Santarem, Para, Amazônia, Amazon, Amazonian, Brazil, Brasil, Brazilian, América do Sul, South America, Comunidade Urucureá, Urucurea community, Pará, terra preta arqueológica, ADE, archaeologic dark earth, TPA, herança indígena, indigenous legacy, SUSTENTABILIDADE, sustainability
EN1 Walking on dark earth D67_2215
PT1 Andando sobre terra preta D67_2215
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X20_4708
Depósito de terra preta
Sítio de Terra Preta Arqueológica próximo à vila Canoas, no município de Presidente Figueiredo, Amazonas. Sítios de terra preta são bastante conhecidos na Amazônia. Num primeiro momento pensou-se que fossem depósitos naturais de matéria orgânica, porém a presença constante de cacos de cerâmica associou tais manchas de terra preta à antigos aldeamentos indígenas. Vale observar que um deposito natural seria mais obvio que fosse sedimentado em terra baixa: isso não é o caso do sitio documentado, que encontra-se no topo de uma ladeira, como indicado pela inclinação da estrada no canto inferior direito.
No sítio ilustrado na foto, os agricultores da região extraem a terra preta de trator para enriquecer o solo de suas plantações.

X20_4708 – Leonide Principe
Equipment: COOLPIX P7800 with lens set at 6 mm – Exposition: ISO: 100 – Aperture: 2 – Shutter: 1/125 – Program: Shutter Priority – Exp. Comp.: -0.3,
Original digital capture of a real life scene –
Original file size: 4032px x 3024px
Location: Canoas (Presidente Figueiredo – Amazonas Brazil)
Date: September 7, 2015 – Time: 5:04:50 PM
Collection: Archaeologic Dark Earth – Persons shown: children
Keywords:
herança indígena, indigenous legacy, SUSTENTABILIDADE, sustainability, terra preta arqueológica, ADE, archaeologic dark earth, TPA, crianças, children, GENTE, PEOPLE, Canoas, Presidente Figueiredo, Amazonas, Amazônia, Amazon, Amazonian, Brazil, Brasil, Brazilian, América do Sul, South America
EN2 Dark Earth deposit X20_4708
PT2 Depositos de terra preta X20_4708
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Como a fogueira ancestral
Um cone invertido de dois metros de boca e um metro de profundidade, cavado na terra, recebe todo tipo de matéria orgânica seca, galhos verdes, cascas de coco, tudo aquilo que resulta da limpeza do sitio. O biocarvão resultante deverá contribuir com o volume mensal de uma tonelada de composto.

E93_2655 – Leonide Principe
Equipment: NIKON D5100 with lens 18.0-200.0 mm f/3.5-5.6 set at 18 mm – Exposition: ISO: 560 – Aperture: 3.5 – Shutter: 1/100 – Program: Shutter Priority – Exp. Comp.: +1.0,
Original digital capture of a real life scene
Original file size: 4948px x 3280px
Location: Abra144 (Presidente Figueiredo – Amazonas Brazil)
Date: December 28, 2016 – Time: 4:55:22 PM
Collection: – Persons shown: Raimundo e Chico
Keywords:
agrofloresta, agroforestry, agricultura, agriculture, SUSTENTABILIDADE, sustainability, biocarvão, biochar, composto, compost, terra preta arqueológica, ADE, archaeologic dark earth, TPA, herança indígena, indigenous legacy, terra preta nova, TPN, abra144, Presidente Figueiredo, Amazonas, Amazônia, Amazon, Amazonian, Brazil, Brasil, Brazilian, América do Sul, South America
E93_2655 Like the ancestral bonfire EN1
E93_2655 Como a fogueira ancestral PT1
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Pilando carvão
Não acho que os criadores da terra preta ficassem pilando carvão assim como eu fiquei pilando, com uma granulação super-fina. Eles, espontaneamente, limpavam o terreiro dos restos da fogueira e dos alimentos e acumulavam na borda da aldeia: era o passar dos anos que fazia aqueles resíduos se homogeneizar. Porém eu queria resultados imediatos, sabendo que quanto menor a partícula de carvão, maior o área de absorção.

E93_2777 – Leonide Principe
Equipment: NIKON D5100 with lens 18.0-200.0 mm f/3.5-5.6 set at 18 mm – Exposition: ISO: 110 – Aperture: 3.5 – Shutter: 1/100 – Program: Shutter Priority – Exp. Comp.: 0.0,
Original digital capture of a real life scene
Original file size: 4948px x 3280px
Location: Abra144 (Presidente Figueiredo – Amazonas Brazil)
Date: December 29, 2016 – Time: 11:53:35 AM
Collection: Terra preta – Persons shown: Raimundo e Chico
Keywords:
agrofloresta, agroforestry, agricultura, agriculture, SUSTENTABILIDADE, sustainability, biocarvão, biochar, composto, compost, terra preta arqueológica, ADE, archaeologic dark earth, TPA, herança indígena, indigenous legacy, terra preta nova, TPN, abra144, Presidente Figueiredo, Amazonas, Amazônia, Amazon, Amazonian, Brazil, Brasil, Brazilian, América do Sul, South America
E93_2777 Grinding charcoal EN1
E93_2777 Pilando carvão PT1
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Alma da terra preta
Trabalhando o composto com reverência, fico imaginando:
o composto é onde nasce a alma da terra preta, o ser vivo que alimentou as variadas civilizações desde os Andes até a foz do rio Amazonas. Desde cidades até pequenas aldeias, na ramificada rede de rios da bacia amazônica, é onde o escambo florescia numa explosão de cores, sabores e sons. As pirogas, indo e vindo, não tinham nada a perder para a atual navegação. Largas avenida, retas e perfeitamente limpas, “sem uma folha”, cruzavam esplendorosas floresta. Numa extrema variedade de etnias, idiomas e dialetos, os viajantes eram verdadeiros poliglotas. Centros cerimoniais e peregrinos vivificavam e davam o sentido àquele imenso “Mar Dulce”, uma superfície 5,8 milhões de Km2 e milhões de habitantes, ainda hoje, sussurram vários legados. Revirando o composto, imagino como se ali tivesse vivido.

X28_6438 – Leonide Principe
Equipment: COOLPIX P7800 with lens set at 6 mm – Exposition: ISO: 100 – Aperture: 2 – Shutter: 1/400 – Program: Shutter Priority – Exp. Comp.: 0.0,
Original digital capture of a real life scene
Original file size: 3024px x 4032px
Location: Abra144 (Presidente Figueiredo – Amazonas Brazil)
Date: March 2, 2016 – Time: 10:47:37 AM
Collection: Terra preta – Persons shown: Leonide Principe
Keywords:
agrofloresta, agroforestry, agricultura, agriculture, SUSTENTABILIDADE, sustainability, biocarvão, biochar, composto, compost, terra preta arqueológica, ADE, archaeologic dark earth, TPA, herança indígena, indigenous legacy, terra preta nova, TPN, abra144, Presidente Figueiredo, Amazonas, Amazônia, Amazon, Amazonian, Brazil, Brasil, Brazilian, América do Sul, South America
X28_6438 Soul of the dark earth EN1
X28_6438 Alma da terra preta PT1
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Da Terra Preta Arqueológica à Terra Preta Nova
Voltei onze mil anos ao passado, estou sobrevoando uma floresta amazônica que não tem fim. Após um prolongado vôo, prazeroso, enxergo uma pequena clareira, à beira de um riacho. É uma pequena aldeia de poucas famílias nômades.
A “Pré-história“
Aquela pequena aldeia de poucas famílias nômades esforça-se na tarefa diária da sobrevivência. Para não distraí-los de suas tarefas diárias, me aproximo numa frequência de invisibilidade total e completamente silenciosa.
Fico bem em cima da oca, minha tela mental vasculha todo movimento em volta da clareira: o caçador traz sua caça, o pescador seu pescado, outros vem com frutas silvestres, e todos reúnem-se em volta da fogueira central para preparar o alimento diário. É a festa. Todos juntos, dançam, como todo dia. Tem fartura e alegria. Dá vontade de descer no meio deles, mas sei que isso mudaria drasticamente o comportamento. Ao raiar do dia, todos estão de pé, cada qual para sua tarefas. As crianças já estão gritando e mergulhando no igarapé. Levo minha atenção para os que limpam o terreiro, esse é foco da minha viagem. Juntam os restos de comida, tudo vai para a fogueira e, depois, é carregado para fazer mais um pequeno monte no meio de tantos outros, que se acumulam na beira da aldeia. Nas redondezas daquele pequeno mundo, acumulam-se os ossos e os resto de comida queimados na fogueira, o carvão e a cinza, cascas e caroços, urina e fezes.
Há um autêntico saneamento básico, um ciclo completo entre o receber e o dar, perfeitamente equilibrado e em constante evolução. Posso ver o resultado nos próximos milhares de anos.
Vou testando o ajuste fino de dilatar e contrair o tempo, e acompanho, sempre invisível e silencioso, a evolução do processo civilizatório.
Chega um momento em que os recursos da área escasseiam e o líder do grupo decide mudar a aldeia, seguindo pelas trilhas ancestrais.
Aos poucos, vou adiantando o cronometro de bordo alguns anos até que os descendentes daquele mesmo grupo humano, após vários retornos sobre o mesmo sítio, são mais numerosos e celebram a abundância. Aquele que era o círculo externo da aldeia agora é uma floresta de alimentos: é a abundância dos ancestrais que coletaram e selecionaram os caroços da pupunha, do açai, do tucumã, do buriti, da bacaba, do jatobá, do uxi, do piquiá, das várias castanhas e de tantas outras frutas. Agora na borda daquela mesma aldeia há uma agrofloresta variada e riquíssima que cresce viçosa sobre o solo escuro, rico de matéria orgânica, é um ecossistema que inclui uma vasta biodiversidade, vegetal e animal. Eles já sabem conscientemente como acumular os resíduos orgânicos na beira externa da aldeia. Os campos de cultivo crescem e, proporcionalmente, à população. É o início de um novo ciclo histórico: a aldeia percebe que o lugar pode garantir seu sustento permanente. Nasce a agricultura: mais espécies são domesticadas e, então, eles vem aprimorando aquele solo formidável, que faz as plantas prosperarem.
A profundidade da terra preta mede até dois metros de profundidade, há muitos cacos de cerâmica, colónias especializadas de bactérias e fungos que se orientam no fluxo energético colaborativo.
Em nossos dias, chamamos isso de Terra Preta Arqueológica (TPA), uma sofisticada tecnologia agrícola que os cientistas procuram entender. Ouso dizer, que a pesquisa acadêmica divide tudo em pedaços inanimados, dissolvendo o sentido de uma totalidade harmônica.
As aldeias crescem e ocupam mais território, se tornando etnias. Agora eles cultivam a mandioca, que pode ser armazenada. Eles tem até um complexo sistema de rituais, o que hoje chamamos de cultura. Eles tem um conhecimento universitário avançado, com um corpo docente capaz de consultar a ancestralidade e resolver todos os desafios sociais. Isso não é uma metáfora: o pajé treina seus discípulos ao acesso direto do “campo quântico”, a memória do universo. Repassado em forma de mito, esse conhecimento mantém o grupo social coeso de uma maneira altamente benéfica, para todos: humanos, animais e plantas. É a sabedoria do coração e da intuição, que permite criar calendários sofisticados, classificar plantas com suas propriedades, compreender a linguagem dos animais, para citar apenas algumas das maravilhas.
Do outro lado, a história oficial da academia ocidental define a era pré-colombiana como pré-história e diz que a paisagem milenar da ocupação humana da região, não teve agricultura e também não teve cultura, apenas um povo selvagem fragmentado em pequenas aldeias, lutando pela sobrevivência. Assim foi, afirmam os sábios da academia, até a chegada dos europeus, quando a história oficial do continente começou. E assim é, ainda hoje, e eles concluem: como são as aldeias indígenas hoje, assim sempre foram nas épocas passadas, ignorando o genocídio.
A “História”
Um grande engano aconteceu na Amazônia.
Em minha corrida no tempo, estou chegando no tempo da invasão, «a trilha das lágrimas».
Os primeiros conquistadores não tinham o menor sentido de diplomacia, eram verdadeiros bárbaros, sem escrúpulos, gananciosos do ouro, do qual ouviam relatar uma incrível abundância. Mais letais que suas armas de fogo, eles carregavam o pior dos inimigos, invisível e implacável: vírus e bactérias que, nos corpos sem defesa, não perdoavam. Os estrangeiros pareciam mais com poderosos bruxos do mal, que castigavam os nativos pela magia. Esse aspecto da conquista sempre foi ignorado ou colocado em segundo plano, pois realmente os povos indígenas eram um empecilho para o “progresso”. Além de criar resistência, eles não eram idôneos ao trabalho escravo que os dominadores exigiam. Assim, quando, os cientistas chegaram, um século após a invasão, o massacre, já estava bem avançado e poucos perceberam o tamanho real do genocídio. E, por conveniência, calaram.
Depois de vários séculos de silêncio, mesmo que monumentos de gloria tenham sido erguidos e eventos comemorativos sejam celebrados todo ano, é preciso falar que aqueles heróis da conquista, eram na realidade criminais de guerra, aventureiros gananciosos que deixavam destruição por onde passavam. Eles ainda deixaram como herança até os nossos dias, o desprezo aos povos nativos.
Assim, sob pena de sua extinção, uma civilização que se assume como tal, não pode deixar de examinar seu atos passados e presentes e reparar. A civilização dos colonizadores haverá de reconhecer o desastre consumado e reconhecer o valor dos povos antigos que aqui existiram por milhares de anos. Eles eram tão civilizados quanto a Europa e, em certos aspectos, até mais. Se, em vez de aniquilar, os primeiros conquistadores tivessem buscado a integração e o aproveitamento daqueles conhecimentos, hoje não viveríamos uma relação tão esquizofrênica com a natureza… e o risco de extinções em massa não estaria tão próximo.
“Os antropólogos do século XX cometeram o erro de entrar na Amazônia vendo apenas pequenas tribos e dizendo, ‘Bem, isso é tudo que existe’. O problema é que, até lá, muitas populações indígenas já havia sido dizimadas pelo que foi essencialmente um holocausto do contato europeu. É por isso que os primeiros europeus na Amazônia descreveram tais assentamentos maciços e que, mais tarde, ninguém conseguiu encontrar”.
Michael Heckenberger, antropólogo
“[…] A imagem de pequenos e efêmeros grupos indígenas com impactos mínimos sobre as terras que ocupavam, é ainda amplamente mantida por muitos cientistas naturais, ambientalistas, políticos e até pelo público em geral. Isso não é mais sustentável.”
Michael Heckenberger, antropólogo
Podemos, então, dizer que há provas irrefutáveis de uma civilização amazônica tão avançada quanto os Incas, os Maias, os Astecas. Porém para dissolver todo tipo de dúvida, vou continuar minha viagem temporal.
O solo “construído”
Uma cegueira gananciosa levava os conquistadores a procurar um Eldorado que estava a plena luz do dia e não enxergavam. O ouro das cidades perdidas, o ouro dos ‘conquistadores’ sempre esteve à vista. Não havia monumentais cidades de pedra, mas centros ritualísticos em enormes ocas de até 1.000 m2, construídas com folhas de palmeira e varas de madeira, uma arquitetura ainda hoje invejável. Havia estrada conectando aldeias, com até 20 metros de largura, perfeitamente limpas, astronomicamente alinhadas, entre uma cidade e outra. Havia jardins florestais com terras extremamente férteis, terras feitas por seus habitantes a partir de um solo extremamente pobre. A floresta inteira era um jardim primorosamente cultivado. Havia castanhais imensos. No Acre, sempre mais aparecem construções de terra até então escondidas pela floresta. «Gigantescas estruturas cuja precisão geométrica e consistência de medidas indicam planejamento meticuloso” (Denise Schaan). Isso tudo já está comprovado: a Amazônia é uma floresta cultural. Quão seria a gratidão? pelas imensas florestas tropicais, se não devolver o valor da dignidade aos criadores do paraíso que ainda resiste. Não se trata apenas de reparação, se trata de reconhecimento e, no segundo seguinte, do convite sincero a compartilhar da mesa que era deles. O convite não é para a mesa de negociação, é para a mesa das refeições.
O brasileiro vive o Brasil e não o descobre.
Mario de Andrade
Em 1720, o guarda de fronteira Antônio Pires de Campos descreveu uma paisagem densamente habitada na cabeceira do rio Tapajós, pouco a Oeste do Xingu:
“Esses povos existem em número tão enorme que não é possível contar seus povoados ou aldeias, muitas vezes em um dia de marcha passa-se por 10 a 12 aldeias, e em cada uma há de 10 a 30 habitações, e dentre essas casas há algumas que medem 30 ou 40 passos de largura… até mesmo suas ruas, que eles fazem bem retas e largas, são mantidas tão limpas que não se encontra nenhuma folha caída…”
Relato do guarda de fronteira Antonio Pires dos Campos, 1720
O relato de Antônio Pires de Campos foi considerado pelos historiadores como um exagero, se não uma alucinação. O establishment cultural e científico nunca quis admitir a possibilidade de civilizações avançadas na Amazônia. Porém, as evidências vem aparecendo sempre mais. Em sítios arqueológicos recentemente pesquisados, foi descoberto que ali teve uma população numerosa, um sistema econômico altamente produtivo e amplas modificações da paisagem, e provavelmente, uma organização social de tipo urbano.
É sabido que o solo natural da floresta, das argilas amarelas até as areia sedimentadas, lavado pelas chuvas tropicais, perde rapidamente seus nutrientes. Porém, o solo “construído” pelos antigos povos da Amazônia é ainda um mistério: a Terra Preta Arqueológica é um solo vivo, que se regenera e se expande. Sua fertilidade permanece até hoje, depois de milhares de anos. Muitos tentam reconstruí-lo como Terra Preta Nova e o autor deste artigo é um deles. É um jeito fascinante, simples e genial de lidar com a terra.
A magia da terra preta
Somos um povo bem diferente de como os antigos eram: nós pensamos muito, analisamos, queremos provas que mostrem a coerência do nosso raciocínio. Não tem nada de errado nisso, é apenas um método de pesquisa, o que é errado é pensar que só assim chega-se ao conhecimento.
Os povos antigos agiam diferente e portanto chegaram a realizar um conhecimento extremamente avançado da realidade onde viviam.
A minha nave temporal se encolhe, muito menor que um grão de areia e mergulho na terra preta, e descubro os elementos que a compõem: tem carvão, muito carvão, e cinza, tem restos de comida queimada, tem cacos de cerâmica, tem colônias de bactérias que a fazem viva mesmo depois de milhares de anos, e tem muita matéria orgânica, entre outras coisas.
Está na hora de voltar ao meu tempo, três letras se destacam na minha tela mental: TPN, terra preta nova.
Assim minha jornada retorna ao ponto de origem, e vejo que a terra preta não está por nada esquecida. Nos Estados Unidos, imitando a terra preta, pequenas usinas móveis rebocadas por camiões chegam nas fazendas e carbonizam os resíduos da lavoura para serem re-incorporados na terra.
Então, a terra preta gera lucro, por isso Universidades dos Estados Unidos e da Holanda, entre outros desenvolvem pesquisas sobre o assunto.
Se a Terra Preta se tornasse uma prática comum seria a atividade com maior captura de carbono, pois o carbono estocado na terra é onde ele precisa estar, onde permanece estável. Em quanto os povos antigos estocavam carbono na terra, a atual civilização estoca no ar, numa evidente prática de auto-lesão. Mas claro, a terra preta pode reverter essa doideira.
Querido Mário de Andrade você disse que o brasileiro vive o Brasil e não o conhece. Eu diria: o brasileiro vive o Brasil e está na hora de descobri-lo, pois tem muita gente por ai que já o vem descobrindo e comercializando.
Terra Preta Nova
Resumindo, eu fiz uma viagem ao passado. Fica a critério do leitor considerar o assunto como uma ficção cientifica, ou não. Mais importante, o propósito da viagem foi para pesquisar como os povos da antiguidade criaram a terra preta. Ao mesmo tempo, em paralelo, durante várias estações, trabalhei na borda da floresta, cultivando um solo extremamente pobre, no qual iria injetar a magia da terra preta. A metodologia usada foi de conectar o mundo 3D da fisicalidade com o “campo quântico” da física atual, o qual coincide com o “akasha” da tradição esotérica. como era conhecido antigamente. Destronando a exclusividade ditatorial do pensamento racional, a intuição e o sentir entravam a fazer parte da equação.
A minha viagem ao passado não foi realizada numa única jornada, também porque trata-se de uma tecnologia em fase de aprendizagem. Durante vários anos eu flutuei entre as minhas insistentes experiências de reconstrução da terra preta e as “excursões astrais” naquela aldeia remota. Estas excursões prosperaram com a constante dádiva dos saberes ancestrais que se apresentavam na tela mental e eram aplicados na domesticação do solo.
No aeródromo da meditação profunda e das plantas sagradas da tradição amazônica (ayahuasca), a nave decolava rumo às terras da intuição e do sentir.
Assim, me concentrava nos montículos de resíduos orgânicos que os aldeões acumulavam no perímetro externo de suas habitações, ali estava escondido o segredo investigado. A nova geração de arqueólogos e antropólogos brasileiros, Eduardo Goes Neves, Eduardo Viveiro de Castro, Michael Heckenberger, entre outros, me confirmavam isso com suas escavações e descobertas de uma Amazônia sempre mais longe do mundo acadêmico tradicional. A brilhante visão filosófica do indígena Airton Krenak foi crucial para acessar os horizontes da paisagem cultural pré-colombiana. Também, de grande valia foram os documentos históricos dos primeiros exploradores europeus.
Naqueles montículos estava resumida a vida da aldeia: a coleta de alimentos, a preparação dos mesmos, o uso do fogo como meio de limpeza e gerador de cultura, a consideração reverente à Mãe Terra.
Como eu poderia acelerar e reproduzir aquele processo de séculos de acumulação?
De novo, as pesquisas arqueológica confirmaram algumas evidência: os resíduos continham cacos de cerâmica, restos de comida e muito carvão. Ainda, por conta da compostagem, ali prosperavam bactérias e fungos, os principais atores da decomposição, que criavam a qualidade de um solo vivo e permanentemente fértil.
Eu desejava recriar, na medida do possível, aquele ambiente antropológico da aldeia, para que o resultado da minha agricultura fosse o mais próximo possível. Por isso, na medida do possível, adaptei minha prática de vida ao sistema intuitivo, minimalista e conectados aos princípios colaborativos da natureza: cozinhava com lenha, queimava resto de comida e fazia compostagem, mas, para acelerar o feitio da terra preta nova eu precisava de muito carvão e ele precisava ser pilado e reduzido ao menor tamanho, para aumentar sua área de absorção.
O carvão é o elemento que contrasta a excessiva lixiviação do solo, provocada pela elevada pluviometria da Amazônia. O carvão não é lavado pela chuva, ele permanece no lugar e nele se abrigam os nutrientes e bactérias responsáveis pela fertilidade.
Primeiro passo: um cone invertido de dois metros de boca e um metro de profundidade, cavado na terra, recebe todo tipo de matéria orgânica seca, galhos verdes, cascas de coco, tudo aquilo que resulta da limpeza do sitio. O biocarvão resultante deverá contribuir com o volume mensal de uma tonelada de composto.
Segundo passo: o carvão pilado era adicionando na minha compostagem numa quantidade de 30% do volume total. Ainda, além dos resíduos de alimento, adicionava todo tipo de fruta encontrada no pé das fruteiras e toda urina que conseguia coletar. Sempre que pudesse o composto era incrementado com cana de açúcar moída e os restos de peixe tratado do mercado da cidade mais próxima. Eu queria uma grande diversidade de ingredientes, tão generosa quanto os montículos da nossa aldeia ancestral.
Terceiro passo: acumulado numa caixa de mais de um metro cúbico, o composto era revolvido e removido para a próxima caixa, em quanto na primeira caixa reiniciava o processo. Cada mês, o conteúdo de cada caixa avançava até chegar na quarta caixa, onde, finalmente, está pronto para ir às plantações.
Quarto passo: o composto, uma tonelada por mês, era distribuído nas leiras e nas covas das fruteiras. A pobre terra de barro vermelho, aos poucos, vinha escurecendo.
A incorporação constante do super-composto andava de mão dada com a manutenção de uma farta cobertura vegetal do solo, da espessura de um palmo ou mais, a qual além de limitar a incidência solar e manter a umidade na área das raizes, criava um pequeno ecossistema com várias espécies de insetos, bactérias e fungos benéficos. O ser humano facilitava e participava do intercambio de nutrientes nesta comunidade colaborativa dando partida ao solo vivo da terra preta.
A agricultura da terra preta não precisa de adubos químico, nem de defensivos: numa escala humana e familiar garante a segurança alimentar, sadia e auto-gerida e a saúde do inteiro ecossistema. E, numa escala industrial, pode garantir uma enorme captura de carbono no solo.
Versão 0.1 – Texto não revisado, ainda









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